Você gosta de ver filmes, novelas, séries de TV, ou quem sabe ler livros, quadrinhos, ou mesmo sentar com um amigo, e escutar uma história de algo que aconteceu com ele? Você tem prazer nisso? Escutar uma narrativa, com início, meio e fim, com algum personagem ou pessoa real, passando por alguma dificuldade, ou conflito, tentando descobrir como solucioná-lo, isso dá prazer a qualquer ser humano não importa a forma que essa história lhe chegue. E isso não de agora que temos tantas histórias com heróis sendo produzidas para todos os lados, mas desde a pré-história. A necessidade de escutar histórias é na verdade algo instintivo do próprio ser humano, uma ferramenta que evoluiu conosco para aprendermos coisas com mais facilidade. Todo povo precisa de uma mitologia que o guie. Toda pessoa precisa de uma historinha própria que dê significado a sua vida e resolva os mistérios ao ser redor.
Voltemos à pré-história em que a humanidade se resumia a pequenas tribos esparsas pelo mundo de caçadores e coletores. Qual era o grande evento para esse povo? Geralmente era a caça de uma grande animal, um mamute por exemplo. Quando não estavam caçando, as pessoas se reuniam toda semana ao redor de uma fogueira e os mais velhos, os com mais experiências, narravam os atos heróicos e corajosos de grandes caçadores. Pensem que num mundo sem TV, sem livros, esse era o grande entretenimento da semana. Os jovens sem experiência de caça sentavam e escutavam aquelas narrações com todo o entusiasmo possível, se imaginando no futuro grandes caçadores também. Seus heróis eram esses caçadores. O caçador corria pelas planícies atrás de grandes e temíveis animais, escalava em árvores para pular nas costas de mamutes, ou outros animais mais perigosos, tentava acertá-los na cabeça com um machado, quem sabe só para cair no chão, deslizar para um penhasco, porém sobreviver a essa adversidade, e assim se jogar por baixo do animal e com uma lança perfurar seu estômago. Voltando para a tribo carregando a carcaça vitorioso, sendo tratado como um salvador, recebendo a atenção de todos, fora vários privilégios. As pessoas escutavam isso e se imaginavam fazendo o mesmo. Às vezes, nem imaginar era necessário, pois podiam ver, como num cinema, o fogo de uma tocha passar rapidamente pelos desenhos em uma caverna representando a aventura. Claro que a realidade era bem diferente, de uns 15 que saiam para uma expedição de caça, um ou dois poderiam ser os heróis, o resto só no máximo ajudava a carregar a carcaça do animal morto, fora os que morreriam pelo caminho, quem sabe de coisas banais, como tropeçando numa pedra. Porém, com aquela narração da caça, do herói, o risco não importava, porque todos saiam acreditando que eles próprios seriam os heróis. Era a historinha contada ao redor da fogueira que os motivava, real ou não.
Agora, vamos avançar mais um pouco, vamos desenvolver a civilização, vamos para a Grécia antiga. Os gregos não tinham a história da caça ao mamute, eles tinham no lugar a guerra de Tróia. A guerra de tróia é uma saga heróica que conta como um príncipe de Tróia, uma cidade rica da Ásia, numa viagem de férias pelas cidades gregas, acaba em Esparta, uma das mais ricas também, e na ausência do rei, se apaixona pela rainha, Helena, e ela também por ele. Enfim, ele “seqüestra” ela de volta para Tróia. O rei de Esparta retorna, vê que sua mulher foi levada, sua honra quebrada, e assim, junta os outros reis das cidades gregas para ir pegar ela de volta em Tróia, começando uma guerra entre os dois povos. Todos, é claro, também com o objetivo de no caminho fazerem muito dinheiro saqueando as cidades do inimigo e seus aliados. A guerra dura 10 anos, e é marcada não só pelo destaque das ações de vários reis heróis, como Aquiles, Ulisses e Agamenon, como também pela interferência dos deuses sobre os humanos, como Zeus, Hera, Atenas, Apolo, Ares, Afrodite. Que muito como num jogo de vídeo-game, aparecem e dão poderes especiais aos heróis, ou os convencem a tomar certas ações que não tomariam. A guerra termina com um clássico estratagema. Já com as forças dos troianos e seus aliados totalmente destroçadas, os gregos se vêem com um único problema, a própria cidade de Tróia. Imensa e cercada de uma gigantesca muralha, não há forma deles entrarem. Fora que esperar ao seu redor os troianos desistirem também é custoso, já que há um vasto exército para manter, alimentar. Logo, eles declaram a paz, e dão de presente um imenso cavalo de madeira para os troianos. Deixam ele nas portas da cidade e vão embora. Os troianos abrem os portões, pegam o cavalo, trazem ele para dentro, fecham, e começam uma festa de fim de guerra. Passa o dia de festa, chega à noite com todos bêbados ou dormindo, se revelam dentro do cavalo, heróis gregos. Eles saem do cavalo e sorrateiramente abrem os portões para os outros soldados gregos lá fora escondidos. O exército grego invade Tróia e massacra todo mundo, saindo vitorioso. E essa é a historinha dos gregos! O que isso quer dizer? Que de uma criança de 3 anos, a um velho de 70, de um homem pobre, a um homem rico, todos conhecem a história da guerra de Tróia detalhadamente. Quase todos os dias um grego pode encontrar em alguma esquina, algum velho poeta narrando sobre a guerra, sobre o feito de algum de seus heróis. Narrando e narrando de diferentes formas, mas sempre com os mesmos personagens e situações. Um grego no seu cotidiano quando se encontra com algum problema, para e pensa: o que Aquiles faria nessa situação? Ou quem sabe, como a deusa Atenas me aconselharia nesse negócio? Como essa é sua historinha, a referência dos gregos para tudo sempre é a dos heróis e deuses da guerra de Tróia.
Avançamos mais um pouco, da Europa Medieval ao Brasil de uns 100 anos atrás, quem é nesse tempo o velho ao redor da fogueira, ou o poeta recitando sobre a guerra na esquina de uma cidade? Qual o grande evento a ser narrado? Temos nessa época e região, o cristianismo como historinha dominante. Agora, quem cativa as pessoas contando histórias é o padre todo domingo, falando de Noé, Moisés, Jesus. O novo caçador, o novo Aquiles, é Jesus. Sua história com início, meio e fim, são suas ações, são as decisões que toma a partir dos conflitos que enfrenta,o exemplo a ser seguido. Jesus, Virgem Maria, e outros personagens da mitologia cristã, viram os pontos de referência para o povo no seu dia a dia. É um o que Jesus faria nessa situação?
Presente, você liga a Tv e vê um filme, ou um desenho, ou uma novela. Quem já não viu um episódio de Simpsons, ou melhor, quem já não viu o mesmo episódio de Simpsons pelo menos umas 5 vezes? Homer Simpsons virou o novo caçador de mamute, o novo Aquiles, o novo Jesus. Uma pessoa pode se pegar agora vendo um exemplo dele em um dos mais de 300 episódios do desenho para guiar a sua vida, tanto no que fazer, quanto no que não fazer. O Homer, ou quem sabe o Homem de Ferro, ou um jogador de futebol, ou um ator, ou o Harry Potter, são os novos heróis. Hoje em dia, as pessoas não tem mais uma só referência de mitologia, toda a mídia em massa é o mito. Do Bob Esponja a protagonista da novela das 20h. Do Rick da série Walking Dead, ao Rafinha Bastos fazendo piada em algum programa humorístico. Isso, por que essa necessidade humana de buscar comportamentos, experiências em histórias exteriores é continua.
São essas historinhas que guiam a vida das pessoas, como elas compreendem seu dia a dia. Voltando a pré-história, pensem numa pessoa de uma tribo isolada que nunca viu o oceano. Essa pessoa não tem o velho ancião contando histórias sobre o oceano, não sabe nada disso. Um dia essa pessoa chega numa praia e se depara com um gigantesco infinito azul, correndo para todos os lados, se debatendo violentamente e jogando água para a praia. Ela se assusta, teme aquilo, vê uma força muito maior que ela, que não pode compreender. Nasce um deus. A palavra oceano na verdade é o nome de um deus, que é o Oceano. Pois não podendo compreender o que é aquela força, as pessoas se contam uma historia a partir do que conhecem para poder entender o mistério. O Oceano é um deus para os gregos anteriores a Sócrates, as tempestades, os raios, essa outra força poderosa, são outro deus para um outro povo, o nórdico, são produto de Thor, o deus do trovão, causando raios quando bate seu martelo nos céus. Thor, que sobrevive até hoje em quadrinhos e filmes da Marvel, até uns mil anos atrás, ainda era respeitado como uma força presente, tanto da natureza, quanto da guerra. Um nórdico, um viking, antes de ir batalhar contra um outro povo, beijava um pedante no formato de um machado que carregava ao redor do pescoço. Do mesmo jeito que depois faria um cristão com a cruz. Hoje vemos a raiva como uma reação psicológica de uma pessoa a certa situação. Na narrativa de Tróia, a raiva era uma visita do deus Ares, deus da guerra, que manipulando os humores do homem, o enfurecia para guerra. Os próprios sentimentos não sendo totalmente compreendidos pelo homem ganhavam assim suas historinhas divinas.
Pense agora no presente, pegue no seu bolso o seu celular, você sabe como ele funciona? Como a sua voz atravessa quilômetros para chegar em outro lugar em questão de segundos, como você pode capturar a imagem de alguém na tela dele, ou jogar um vídeo-game apertando seus botões, ou tela touch-screem? Não, a maioria das pessoas não conhece as ondas eletromagnéticas que permitem a informação de sua voz ser transmitida, não conhecem o código binário dos transistores feitos de silício com filamentos de ouro, que permitem os programas que simplificam tudo em sua mão ao toque de alguns botões. Para a maioria das pessoas tudo se resume a uma tecnologia, o que quer que seja isso, feita por algum sujeito mais inteligente, um cientista, quem quer que seja ele, que permite ela ter todas essas capacidades ordinárias: falar a distância, tirar fotos, escutar música, jogar, sem se preocupar com mais nada. A tecnologia é a nova historinha, é o novo mito. 10 mil anos atrás, um celular seria visto como um tijolo divino dos Deuses, dando poderes sobrenaturais aos homens. Essa era a historinha de então, hoje em dia, os padrões mudaram, e tudo se resume a tecnologia que um cientista fez. A pessoa ainda desconhece o que tem na mão, só a narrativa mudou. E se ela não tivesse essa historia, o celular seria mais uma vez um objeto estranho, extraordinário, assustador.
“O ser humano só luta por coisas imaginárias.” frase de Neil Gaiman em seu livro Deuses Americanos. Ou seja, a realidade nunca basta as pessoas para nada, para ela fazer algo, se motivar, enfrentar desafios, ou entender os seus próprios arredores, ela precisa se contar alguma historinha imaginária, que vai dar aquilo que era banal e sistemático na realidade, um fundo muito mais emocionante, cativante.
Um último exemplo, quem nunca experienciou, ou viu num filme, um casal que se encontra, se apaixona, e vê aquilo como destino, como um sendo sempre feito para o outro, que sempre ficarão juntos? Uma relação como algo mágico. Quando na realidade não passa de uma reação química dos nossos corpos, com o objetivo de levar a reprodução. O destino, o eterno, a magia, é a história que as pessoas se contam para se motivarem, para se sobrepujarem sobre o real, se sentirem por fim especiais.



