Como já estabelecemos na aula anterior, o ser humano compreende o mundo e se comporta através de historinhas que melhor lhe permitem interpretar a realidade. Mas o que é essa sua impressão em si da realidade? Quando você olha ao seu redor o que você realmente vê, ou melhor como você está realmente vendo? Os olhos humanos não vêem imagens, não há imagens ao nosso redor, o que há é luz, partículas, fótons, que batem nas superfícies, têm parte de sua energia absorvidas por elas, e parte refletida, e é esse refletido, essas partículas que chegam em nossos olhos, que temos de informação sobre parte dos nossos arredores. Isso não é imagem, imagem é o que o cérebro faz com isso, como pega essa informação e determina distancias para criar uma perspectiva, como determina cores para diferenciar as variações de energia dos fótons, como interpreta formas. Na verdade, fora do cérebro humano, não há som, não há calor, ou frio, não há cheiro, não há tato. Tudo não passam de vibrações, freqüências no espaço, e quem dá a elas características específicas é o nosso cérebro. Se experienciamos tudo de uma forma parecida é porque dividimos o mesmo cérebro mamífero, que evoluiu essas habilidades. Logo, tudo que temos ao nosso redor, que vemos, escutamos, sentimos, não passa de um holograma dentro do nosso cérebro, não é o real.
Mas como também já foi visto em aulas passadas, não são só essas ferramentas evolutivas que nos permitem construir esse mundo holográfico na nossa mente, mas também nossas interpretações derivadas de nossas experiências pessoais. É o caso da cadeira, que você só vê como cadeira, porque alguém algum dia criou a idéia de cadeira. Porém, podemos ir além. Há uma teoria que quando os europeus chegaram aqui em suas caravelas, algumas tribos de índios não os podiam ver, não podiam ver as caravelas chegando no mar, pois não tinham nenhuma forma de interpretá-las, não tinham nenhuma historinha que as desse sentido. Esquizofrênicos, por exemplo, nada mais são que pessoas que tem a capacidade, sob controle, ou não, de editar o conteúdo dos seus hologramas pessoais. Alguém já viu o filme Uma Mente Brilhante? É a história real de um matemático paranóico e esquizofrênico, que ao se sentir perseguido por suas idéias, começa a ver agentes do FBI por todos os lados o seguindo; e ao se sentir sozinho em seu apartamento, cria um colega de quarto e uma sobrinha, que lhe dão atenção nos seus momentos de solidão. Ele mesmo não tem o controle sobre essas aparições, como também por grande parte da sua vida, nem sabe que elas são só sua criação. Porém, elas lhe são tão reais, quanto uma pessoa vista por outra, pois tanto ilusão, quanto a realidade não passam dessas imagens criadas nesse holograma nos nossos cérebros.
A filosofia é um ato de autoconhecimento, e para uma pessoa se auto-conhecer ela precisa conhecer os outros ao seu redor, pois sendo humanos dividimos muitas coisas. Cada humano, porém cria o seu próprio mundo de interpretações dentro de sua cabeça. Uma pessoa com problemas de anorexia pode estar um esqueleto, mas no seu holograma mental, ao se ver no espelho, só vê uma pessoa gorda. Uma pessoa rabugenta, sempre antipática com os outros, no meio de pessoas amigáveis e afetuosas para com ela, não as vê dessa forma, mas as vê como falsas ou manipulativas, ou quem sabe vê as próprias expressões de afeto como antipatia. A questão é que ninguém é o vilão de sua própria história. Todos nas suas historinhas que se contam, são seus heróis, suas vidas são sua jornada de herói, e quem vai em oposição a isso é o vilão. Podemos ter um Hitler, que com a sua determinação e carisma, moveu um povo inteiro a participar no genocídio de parte desse mesmo povo. Tanto Hitler, como os alemãs que participaram no genocídio, de outros alemãs e poloneses, por questões sejam religiosas, políticas ou de gosto sexual, se viam como os heróis, os heróis exterminando os vilões. Em suas historinhas pessoais, eles estavam certos, e todo o resto, errado. O próprio Hitler ao se suicidar no fim da 2ª Guerra Mundial, não o fez por vergonha, ou por temer ser julgado pelo que fez, mas sim por orgulho, de se sentir o herói, e ver no povo alemão que perdeu a guerra ao seu redor, como fracassados que não souberam lutar pelo seu sonho, se matou pelo orgulho de não se entregar a pessoas que considerava inferiores.
Um assassino, um estuprador, pode conhecer as regras, leis, da sociedade, pode saber que será chamado de criminoso e será punido, mas se ele faz o que faz, não é por se sentir como tal. Para ele a sociedade pode considerá-lo assim, mas é esta sociedade que é o vilão, e ele o herói só fazendo o que lhe é de direito. Ele tem toda uma historinha que justifica suas ações. O mesmo vale para casos menores, imagine que você tem um desentendimento com alguém por alguma questão. Você tem raiva da outra pessoa, porque sente que ela lhe fez um mal. Mas essa pessoa lhe fez um mal, sabendo que lhe estava fazendo um mal? Ou ela fez isso, acreditando que estava certa, e que era você que estava errada? De novo, os seres humanos são sempre os heróis de suas próprias histórias, os contra eles, que são os vilões. Pense que talvez, você mesmo possa estar errado, estar tendo uma compreensão incompleta de alguma situação, e tomando uma posição que por um analise geral, está mesmo errada e prejudicando outro. O problema é que ideias são como hábitos do cérebro, se ele está acostumado com elas, tende a defendê-las não importa o quanto convincentes sejam os argumentos contra elas. Não importa se apresentando provas indiscutíveis, o cérebro reestrutura a informação para defender aquilo ao que está acostumado.
A habilidade humana de absorver várias histórias, tanto reais, quanto fictícias, de experiências de outras pessoas, essa busca pelo conhecimento, é uma das ferramentas, que permitem uma melhor comunicação entre os seres humanos. Pois uma pessoa com uma vasta gama de experiências, pode, numa situação de conflito, se distanciar de si mesma, olhar para si, e para a outra pessoa, e lembrar que tanto ela, quanto o outro, se acham certos por algumas razões específicas. É o chamado olho observador, distanciado da pessoa que o tem. Com essa técnica a pessoa pode ver a discussão por ambos os lados, e comparando ela com situações similares de suas experiências passadas, das historinhas que escutou, julgar tudo sem a interferência das emoções do momento. Lembrar de como o cérebro funciona com aquilo que acredita, e assim se distanciar de antagonismo, da necessidade de ir diretamente contra o que acredita ser errado, e sim, tentar ver o que há de igual entre as ideias de cada indivíduo, o que une as posições de cada um, e não as afasta. Assim, chegando ao verdadeiro sentido da comunicação, um entendimento, uma troca de informação.


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